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Capítulo 4


Como diria uma amiga: Eu quero fazer um Bonsai de Ninoca! Será que dá?

Minha filhota gostosa

4 anos!!
Todo pai e mãe fala “nossa, passou voando, parece que foi ontem”, e de fato, isso é verdade. Parece que a gente piscou o olho e um bebezinho muito gorducho e muito bochechudo virou essa princesa bailarina que canta, dança e fala O TEMPO TODO. Não é exagero, é o tempo todo, exceto quando a bateria acaba, o que só acontece em situações extremas tipo a nossa última viagem ao Brasil com mais de 20 horas de vôo em 4 escalas das quais todas deram errado de alguma forma. Mas vamos falar sobre isso daqui a pouco.

Por outro lado, neste momento de retrospectiva, eu não consigo entender como tanto tempo cabe em somente 4 anos. E ao bem da verdade, ando fazendo uma força danada pra tentar lembrar como era a vida antes de você… será que tinha uma? Você preencheu cada espaço, cada silêncio, cada momento de um jeito tão arrebatador, tão divertido, tão único que eu sinceramente olho e penso que “parece que foi há 200 anos”, parece que a gente sempre existiu e só existiu juntas. 

O tempo vai passar pra você também, minha coisinha gostosa. Daqui uns anos  você vai descobrir como aniversários não são dias mágicos nos quais, como hoje, você acorda se sentindo grande e forte e “virando 4 anos”, em boa tradução. Nem sempre o mundo inteiro vai mudar num passe de mágica no dia 4 de março, mas você, como eu, vai descobrir que aniversários são sim mágicos, mas de uma mágica deveras diferente. Uma mágica que faz a gente parar e pensar no que passou, no que virá, no que foi bom, no que precisa mudar. Porque aniversários fazem isso com gente que não é tão sábia  quanto você, que consegue ver bem o que está a sua frente, que me respondeu hoje à pergunta:
-       - O que você mais gostou dos seus 4 anos?
-       - De você, mamãezinha linda e quentinha!
Um dia, você também vai olhar pro dia 4 de março chegando no calendário e pensar: mas onde foi parar o tempo? E ao mesmo tempo, que tempo? – Essas reflexões meio que absurdas pra você, são apenas porque o seu aniversário é muito perto do da mamãe, e ela queria estar fazendo 4 também, tão mais divertido que 32!

Mas enfim, voltemos aos 4. Você, que sempre foi do partido das bailarinas, agora se afiliou com carteirinha e ações no sindicato das princesas. Eu posso culpar seu pai, que te deu uma peruca loira e “muito longa” da Rapunzel, junto com o vestido da mesma. Posso culpar sua avó que te deu o vestido da Cinderela, posso culpar o mundo e o capitalismo pela imposição cultural e social das princesas. Mas eu não aguentei quando você, num dia de vento batendo no rosto e seu cabelo mesmo voando lindo pra trás ficou toda séria e começou a cantar: “ Have you ever heard the wolf cry to the blue moon”, e quando eu quis tirar uma foto e falei pra você sorrir, você me falou que não, porque a Pocahontas é séria. Além disso, você não só constatou sozinha que você está mais pra Pocahontas do que pra Cinderela, mas fez uma constação que eu achei interessante, do ponto de vista antropológico, ainda que um pouquinho preocupante, do ponto de vista social , você falou que a Pocahontas e a Jasmin podem ser amigas, porque elas duas são “marrons”. Eu expliquei que não, que todas podem ser amigas, inclusive a Cinderela, coitada, que só tem irmãs más, que ela iria se divertir horrores brincando na floresta com a Pocahontas, ao que você reagiu com a maior cara de “dããr”: “Mamãe, as princesas são adultas, elas não brincam”. Enfim, princesas e suas concepções distorcidas da realidade a parte, a fofura é inevitável. Além do que, você anda se divertindo tanto com a turma da Mônica, com o Patati Patatá, com a Galinha Pintadinha e esses outros capitalistas mais tupiniquins, além dos seus amigos sem marca que são tão preferidos como a sapinha caolha, a tartaruga do projeto Tamar, o porquinho que tem filhotinhos que mamam e o macaquinho pendurado na mamãe, que no fringir dos ovos, eu acho que o negócio é relaxar e deixar você curtir o bom e o ruim. Fiquei tão feliz quando você escolheu sozinha fazer sua festa de 4 anos de “Boneca de neve”, sem nenhuma princesa por perto, que  acho que quando você crescer você vai saber que a roupa da feirinha é tão mais legal do que a da Pakalolo (se bem que você nunca vai saber o que é a Pakalolo), mesmo que só uma vezinha você queira pelo menos um elastiquinho de marca, tudo bem, a gente vai achar um equilíbrio bacana, de comer granola feita em casa mas de vez em quando ir ao McDonald’s.

Do que você é hoje, posso dizer por mim: uma bebezoca gostosa muito, muito engraçada. Você tem personalidade, minha filha, sempre teve! Sabe o que quer e se faz ouvir, característica que eu adoro quase sempre, exceto quando a gente está com muita pressa. Mas eu adoro seu senso de humor, como você não passa batido, e como você sempre tem resposta para tudo, e perguntas para as coisas sem resposta. Coisa de mãe achar que só você é assim. Mas já te digo que só você é assim! J Na escolinha a professora não cansa de me dizer que você vai ser ou artista, pelas suas inúmeras performances, caras e bocas, ou primeira ministra, porque você é uma líder nata. Já vi você liderando todos os seus 18 amiguinhos em um passeio de “ônibus”, onde você organizava quem entrava, quem saía, quem fazia o quê. Já ví você coordenando um piquenique e vejo todos os dias umas 5 ou 6 amiguinhas saindo no tapa, literalmente, pra te abraçar primeiro quando você chega na escolinha. O que eu amo nisso é que a professora vive me contando como você contorna essas disputas “com classe”, ou saindo dela de vez (do tipo, se vocês vão ficar brigando então eu vou brincar com os meninos), ou tentando organizar o coreto. E como você sempre tenta incluir outras crianças “menos populares” (eu jurava que essa de popularidade era mais pra frente...) para quebrar o atrito, e pra deixar todo mundo brincar. Eu amo até o fato de você dizer, sem vergonha nem pudores que você “gosta mais do papai do que da mamãe”, que você prefere piscina à praia, que você só vai usar o casaquinho enquanto eu estiver vendo mas que depois você vai tirar porque você sente calor, e que você era danada, quando riscou a parede de casa, mas que não vai mais ser porque o papai ficou bravo, mas você acha que não tem problema riscar a parede. Autenticidade te resume bem. Eu adoro ter sido a fábrica que produziu esse exemplar único. Sua patente não tem preço!

Das coisas que eu mais amo fazer com você, estão nossos bolos e cupcakes, que você pede pra fazer e eu não aguento, tenho que parar tudo para ver você se orgulhando por já conseguir quebrar os ovos direitinho sem deixar cair casquinha, limpando a mão depois de cada ovo porque não aguenta ficar com a mãe melada, igual eu, medindo a farinha bem certinho, passando o dedo pra ficar retinho e tudo. É delicioso demais ver você se deliciando com seu próprio sucesso. Adoro quando você me chama pra deitar no seu colo quando você está assistindo TV, e eu deito na sua perninha gordinha, e você faz cafuné. Adoro quando você me chama pra inventar brincadeiras onde eu tenho que dizer exatamente o que você tem no seu script mental, sem direito a mudança, e adoro nossas segundas-feiras, quando você fica trabalhando comigo no escritório, na sua mesinha de bricolagens. A outra coisa que me faz feliz a cada manhã, porque faz você feliz também, é arrumar o cabelo. A gente se diverte escolhendo presilhinhas, decidindo se vamos fazer maria-chiquinha, cocotinha, trancinha (uma ou duas, porque o Zack gosta mais de duas), rabinho alto, baixo, de lado...uma infinidade de vaidades que me lembram tanto eu! – E quanto mais eu te vejo, mais eu concordo que uma das coisas mais deliciosas de ser mãe, é a gente ver a vida de novo. E eu que sempre achei que as coisas só eram bem boas quando vistas com olhos de primeira vez, agora consigo ver que há sim uma coisa linda em ver tudo com olhos de “segunda vez”, vale a pena ver de novo e é claro, com a chance de melhorar, de endireitar o que saiu meio torto, enfim, você é uma projeção onde só coisas boas se projetam, como ler um texto pela segunda vez e achar os erros, e descobrir novas belezas, como visitar um lugar amado de novo e achar novos cantinhos, e evitar os restaurantes ruins, e assim, do velho escrever uma história novinha em folha, uma história que vira cada vez mais sua, uma história que eu comecei, mas que aos poucos vou te ensinando a segurar a caneta, escrevemos juntas, até que um dia você vai pegar a caneta de vez, e continuar escrevendo sozinha, e eu vou ler, filhotinha, vou ler e acompanhar cada novo capítulo, mas vai ser impossível não sentir saudade de quando escrevíamos juntas.


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Pequenas felicidades imensas

Coisas que aquecem o coração nestes dias de agradáveis -25 e deixam a mãe abestalhada e saltitante como a Novissa Rebelde no alto da montanha, o canto da boca com aquele sorriso maroto de quem sabe que não precisa de mais nada na vida, e a necessidade de ter uma câmera que registre esses momentinhos que não são parte do roteiro principal, mas que são os que realmente fazem o filme perfeito:

1. Enquanto eu cozinho, os dois filhotes brincam de pular no sofá, o de 6 anos criando um circuito super divertido que passa pela floresta, tem ponte e desafios como monstros e dragão e um bocado de outras coisas interessantes que só se acha na sala daqui de casa. A de 3 anos, presta atenção nas instruções como quem reconhece que sua vida depende de seguí-las, e os dois partem, rumo ao poço das almofadas misteriosas, o desfiladeiro do piano assombrado, a escada... e morrem... de tanto rir quando os dois caem no tapete e se abraçam, e rolam. Amor de irmãozinhos, coisa ímpar, embora par :)

2. Enquanto jantamos, a mãe perde a paciência com uma certa mocinha de 3 anos que não tem problema nenhum em consumir uma mesa inteira de brigadeiros de copinho (vamos reconhecer: e porque alguém teria problema com isso? Mas enfim, criança tem que comer coisa ruim, todo mundo sabe, e esta é a mesma menina que outro dia falou do nada que estava com muita vontade de comer aspargos), mas que de uns tempos pra cá decidiu gastar pelo menos 3 horas pra comer o menor prato de comida. A mãe decide adotar uma posição mais radical e anuncia que ela não precisa comer, mas também não vai comer mais nada. Ela chora, faz drama, diz que é pequenininha e clama então pelos seus direitos (aqueles que poderão, e serão usados contra ela no tribunal) de alguém alimentá-la. A mão por um fio, quando o irmãozão, aquele magricelo bom de garfo que nunca na vida deu trabalho pra comer, em um claro surto de maturidade e bondade que são só dele vira pra ela e fala:
- Tá bom, Nina, eu vou dar pra você... mas vixe! O que é isso? Ah, vou ter que avisar pro XXXXX (um nome engraçado que SEMPRE a faz rir quando pronunciado por ele) que essa menina não quer comer.
Bingo, ela passa do choro pro riso, come a comida toda e ele ainda vira pra mãe e diz:
- É só fazer ela rir, né mamãe? Viu só, se ela fica feliz ela come tudo!
Posso com isso? Não posso! Juro que eu não fiz nada tão bom assim pra merecer!

3. Fazer biscoitinhos com eles, pro papai que chega amanhã. Sério mesmo que poucas coisas nos conectam tanto como cozinhar juntos. Ver uma mãozinha gorda toda orgulhosa porque agora "que eu tenho 3 anos", já consegue quebrar os ovos sem deixar cair pedacinho de casca na massa. A farinha por todo lado, o fato de o menino de 6 saber que pra fazer bolo precisa de um pote pros "secos"outro para os "molhados", medir, pesar, peneirar e a familidariedade com tudo isso.

4. Jogar "Qual é a música"com assobio. Ver um menino de 6 que em questão de semanas passou de "conseguir assobiar"para um profissional do ramo, e a de 3 que tenta acompanhar no que é só um sopro no início pra "Mamãe eu conseguiii!!!! Olha, olha! "fazendo um assobio fininho...

5. O tal do menino de 6 anos que desce correndo do carro na garagem e vem abrir a porta do carro para a mãe falando:
- Madame, por favor... ladies first!
- Ai que lindo, filho, que cavalheiro.
- É porque este é o mês da "não-violência"na escola, e nós estamos aprendendo que tem que ser gentil, ajudar, amar os outros. E hoje é o dia das "filles d'abbord", mas amanhã é dos meninos!

Eu sei lá, eu adoro escola, adoro ver as descobertas da escola sendo trazidas pra casa, e ponto pra escola pública que pode falhar aqui e acolá na matemática e na ciência, mas que tem um programa de filosofia e cidadania realmente exemplar, ainda que laico.

E depois de uma sequência de acontecimentos assim não tem como a gente não pensar que a vida é bonita e é bonita.


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Ninices de quase 4 anos...

De vez em quando a vontade de escrever e registrar o momento ainda supera a preguiça e a falta de tempo! Antes que ela faça 4, vai lá mais um momento bem LimeTree.
......

E lá está você, meia-noite, digitando maniacamente (se não era uma palavra agora é) para acabar um trabalho a tempo do "deadline"(adoro essa palavra, embora a odeie, e não acho uma boa tradução para esta sensação de morte iminente no fim da linha quando uma coisa precisa ser entregue!) quando escuta uma vozinha (de voz, não de vó) atrás de você dizendo:
- Mamãe! Você disse que ia colar o olho da minha sapinha e não colou!!! - Diz uma menininha visivelmente aborrecida, mais que isso, magoada mesmo pela constatação das promessas não cumpridas.

Você, em um surto de consciência pesada, pesa suas prioridades: deadline ou procedimento cirúrgico na pobre sapa que está caolha há algumas semanas (a fila de espera do SUS aqui em casa é longa, e ela estava logo atrás de uns 3 casacos sem botão, 5 camisas amassadas, 2 calças com barras por fazer e uns 10 quadros de fotos a serem pregados). E toda mãe--enfermeira-costureira-carpinteira que se preze sabe bem que em momentos como este, não há escolha: A sapa não pode mais esperar, se ela espera, a menina não dorme. E não adianta tentar convencer de que a sapa fica mais legal com um olho só, porque além de bailarina, ela pode ser pirata!!! Não cola, caros amigos, não cola. Ao menos não com uma Espertina, a menina que dia desses me falou na maior cara levada, ao levar uma bronca:

- Mas mamãe, você não pode brigar comigo porque você é grande, e eu sou pequenininha e você disse que a gente não pode brigar com os mais pequenininhos!!
- Sim, Ninoca, não pode brigar com os menores, mas nesse caso eu posso brigar com você porque você é minha filhinha (dos super-poderes que só a maternidade te oferece) e eu quero que você aprenda as coisas certas, como obedecer sua mamãe (e nunca achar respostas inteligentes que façam total sentido e deixem sua mãe sem resposta).
- Mas mamãe... (80% das frases dela começam assim) então você vai brigar com o seu bebezinho de amorzinho??? - A frase seria suficiente, não fosse a cara, de quem realmente está incrédula frente a tamanha crueldade e injustiça, só comparada à fome na Somália.
- Nina, obedece a mamãe, tá bom? - Morrendo de rir, com a Figurinha no colo. E lá se vão os super-poderes.
- Ah, tá bom mamãe! - Viu, era fácil assim.

Larga o computador, pega a cola quente. Sapa colada, a paz restaurada. Bendita cola-quente! Tenho cá pra mim que a cola-quente foi a terceira melhor invenção da humanidade-materna (aquela onde só as mães são humanas), logo depois do lencinho umedecido e da fralda descartável. Não serve pra colar consciência quebrada de mãe que a cada dia tem mais vontade de largar tudo para estar 100% disponível para emergências médicas de sapas desolhadas ou o arco-íris feito na escada que precisa ser visto AGORA, mas pelo menos, cola o olho da sapa e te garante alguns minutos de reflexão e re-priorização, sempre necessários e muito bem-vindos.

O próximo assunto a refletir agora, antes de voltar ao trabalho, é sobre os animais de estimação que ela quer ter, como discutido hoje de manhã no caminho pra creche:
- Mamãe, acho que eu quero um elefante, ele pode dormir lá na sala... - Bom, se tem lugar pra ele dormir então não vejo problema algum!

E porque raios a gente não pode passar a vida inteira com o raciocínio de 3 anos? A vida seria mais fácil, eu garanto!

Voltemos aos 30... deadlines.

A sapa caolha que não vai ser pirata

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Excursão

Há muito tempo que eu não escrevo. E há muito tempo que me chamaram pra ser "embaixadora da Limetree"- chique, né? - Mas aí, vida vai, tese vem e eu falei que ia escrever, mas não escrevi.  Mas felizmente,  a vida não está deixando de acontecer só porque a mãe não tem tempo de escrever. Então vamos lá para um primeiro post que retrata um momento Limetree, contando um pouco da vida escolar por aqui.

Semana passada fui de voluntária ao Jardim Botânico com a turma de primeiro ano do Zackolino.
Há de se aproveitar enquanto a criança ainda fica orgulhosa de ter a mãe por perto. Não só por perto, mas sentada ao lado, andando de mão dada, incluida nas brincadeiras com os amigos: "Olha gente, é minha  mãe que vai com a gente!" - enquanto eu me acabo de alegria por ser a mãe que pode ir. Vida acadêmica tem lá suas vantagens: Eu sempre tenho a opção de ir as excursões e não dormir nas próximas 3 noites pra botar o trabalho em dia, mas ainda assim é uma boa opção.

Acompanhar papo de criança é uma coisa que me diverte. E é quase um mal inevitável de mãe sentir uma pontinha de orgulho besta ao ver seu filho exibir, em público e espontaneamente, algo que você prezou muito em ensinar, mesmo sem saber ao certo no que ia dar. Papo de criança imigrante é conversa pra mais de metro. Todos queriam saber que língua eu estava falando com o Zack quando um Português escorregava aqui e lá (nossa regra é falar sempre em Português, a não ser que outros estejam envolvidos na conversa, por educação). E daí uma longa e interessantíssima discussão de "quem nasceu onde" - a maioria dos amigos dizendo categoricamente: "Eu sou Quebecois", mas minha mãe e meu pai são... (chineses, coreanos, egípcios, argelianos...) e Zack discutindo que ele não, ele era brasileiro. Que ele tinha nascido em Montreal, mas ele era brasileiro, tudo dito em bom e claro francês-quebequense. Na visita a estufa, ao ler que várias plantas no setor de "plantas tropicais", eram de origem brasileira, ele saiu todo prosa anunciando pela fila que: "Todas as plantas daqui são do Brasil, gente, tudo, tudo, tudo do meu país". Nacionalismo fofo, acho mesmo.

Verdade é que é uma delícia dividir dias inteiros com os filhos, assim, sem laptop ou telefone por perto, com um único compromisso: se divertir junto e ser "a mãe legal" (desde então quando eu chego na escola vem um bando de amiguinhos me abraçar e falar: "Bonjour, la Mama de Zack!". Também acho um privilégio ver meu meninão brincando com os amigos, liderando jogos imaginários com a turminha. Mas legal mesmo é sentar pra comer o lanche. E tem coisa melhor do que lanche de excursão? E voltar de ônibus (daqueles escolares, amarelos) revivendo as aventuras do dia com os amigos do lado. Vontade de sair cantando: "Motorista, motorista, olha a pista..."

Enquanto isso, no mundo dos que ainda não vão pra escola, Letrina veio me contar faceira que tinha feito um cocô de letra. Me fez conferir o feito e disse com um sorriso de quem re-escreveu a Ilíada:
- Não ficou lindo mamãe? Eu não sabia fazer isso "amanhã", mas agora eu sei porque eu tive "veversário".
O veversário foi do pai, mas aparentemente serviu para alfabetizar o intestino da filha. Só apertando muito!
Este papo fecal todo vindo de uma princesa que "enpricesou" geral há alguns meses, é uma surpresa (porque todo mundo sabe que procurando bem, todo mundo faz cocô, só a bailarina que não faz?). A pessoinha não pode escutar uma música que sai dançando com gestos altamente princesais, e tudo, tudo, tudo, do penteado de cabelo, à roupa de Halloween tem que ser de princesa. E eu juro, de pé junto que a culpa não é minha. Eu inclusive, evito as princesas (principalmente as altas loiras e magras) arduamete, mas essa coisa de princesa vem embutida. E desde que a tia dela mostrou a Rapunzel "que tem um longo cabelo", nossa vida aqui vive de glitter, já que tudo que a varinha mágica (invisível) toca,  vira brilhante (cruzando a tênue linha entre fada madrinha, princesa e fazedora de scrapbook).

Enquanto isso, no mundo dos que estudam além da conta, a mãe, finalmente irá defender sua tese de doutorado nesta semana. Após o que, ela espera (mesmo sabendo que não vai acontecer), ela vai voltar a ser uma pessoa normal (e não tem uma vez que eu digo isso e que o meu interlocutor não pergunte: E normal pra você é o que mesmo???).





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Sem controle - Repostagem

Este post é o segundo melhor post do mundo (kkk, Parabéns Carol, pelo melhor post do mundo!) de acordo com o concurso da Limetree

Tudo começa com um pauzinho cheio de xixi. Um risquinho...opa, dois! E é dada a partida... lá vem elas, as primeiras de muitas que virão, sem aviso, quentes e sem controle rolando pela bochecha enquanto você vomita pela terceira vez no vaso sanitário.

Semanas depois é a vez do gel gelado na barriga, algo meio disforme e praticamente indecifrável mostrando no monitor, um som de surdo ritmado e alguém te diz que é um coração e, lá vem elas de novo, mostrando que vieram pra ficar, para marcar cada nova etapa desta total perda de controle que é virar mãe.

Mais semanas e lá está você, barrigão esquentando na tábua, passando uma a uma (pela primeira e única vez) aquelas roupinhas minúsculas, que logo devem ter dono, que logo vão estar cheias de dobrinhas gordas e risadas banguelas... enquanto passa você assite na TV uma propaganda de carro e um pai com um filho dentro e pronto... me dê essa caixa de lencinhos e você, que nunca chora em público (Freud explica) percebe que dalí pra frente, qualquer música que fale de crianças e pais, ou família e qualquer propaganda idiota de carro ou sabão em pó vão ser motivo, esquece minha filha...controle é pros fracos, ou fortes, ou para os que não tem filhos??

Passam mais semanas e sai de você aquela coisinha com cara de joelho depois de 13 horas de parto e enquanto desconhecidos costuram suas partes mais íntimas, elas correm não por causa da dor (uns dias depois será porque você não consegue sentar, mas vamos pular essa parte porque isso não combina com o tom melodrameatico do post...) mas por causa da alegria incontrolável, inexplicável de ver aquele serzinho com cabeça de cone e pele de meleca olhando pra vc...e elas virão também muitas outras vezes, cada vez que você colocar o dedo na frente do nariz dele para ver se ele ainda está respirando e constatar que ele ainda está, quando ele te olhar e rir pela primeira vez com aquela cara sem-vergonha de quem sabe que veio de dentro de você, quando ele colocar a mãozinha minúscula no seu peito enquanto mama com aquele barulnho único de nenê mamando todo satisfeito...

15 meses mais tarde, um gorduchinho muito descontrolado e desequilibrado vai dar uns 3 passinhos e cair de bunda no chão e você, camêra em uma mão e a outra estendida pra acudir, vai sentí-las rolando de novo. Dias depois vai deixar o mesmo desengonçado aos berros na escolinha e dia após dia, durante duas semanas você vai deixá-lo chorando e vai sair chorando mais ainda (talvez com menos berros) pelo portão, se sentindo a mais culpada, a mais carrasca, a pior do mundo por ter que trabalhar...até que um dia você sai e não escuta um berro, ao contrário, escuta ele se acabando de rir enquanto a professora canta uma música e aí minha amiga... você vai chorar também porque francamente..."como assim??? Feliz sem mim???"

O primeiro mã-mã, a primeira viagem ao Brasil, é lágrima pra oceano nenhum botar defeito...no verão passado foi a primeira vez de bicicleta sozinho e sem rodinha, totalmente livre pra ir e vir, um grito de liberdade, mais um passo de independência, só faltou as margens do Ipiranga...

Semana passada foi uma punhalada... ele virando todo grande, e dando tchau pra escolinha que o acolheu nos últimos 4 anos...você vendo nele pela primeira vez um ar nostálgico, de quem sente o peso de estar crescendo...um tchau definitivo, de quem parte pra novas aventuras. " Eu posso vir visitar a Nina, mamãe?" - "Claro que pode filho!" - Quisera eu poder te visitar pequenininho também...não posso, passou.

Outro dia foi no Wal Mart... pegando um pacote de canetinha, lápis de cor, etiqueta pra colocar nome, estojo...aquele cheiro de material novo, de mundo tão grande por descobrir, tantas aventuras por viver, tantos desenhos a colorir, estórias pra escrever, amizades por fazer... para os outros que passam e se perguntam "por que aquela doida está chorando no corredor da papelaria, os preços no Wal Mart são baixos, mas também não é de chorar", aquilo é só um supermercado, só um pacote de canetinha... pra você aquilo é mais um portão que se abre, e que se fecha com sua cria, a razão das suas lágrimas lá dentro e você de fora, sendo testemunha mas não sujeito, chamada só para as reuniões a cada 3 meses...- Coisa doida gente, essa sensação de sair de cena...um palco tão grande e meu meninó tão pequeno, com todos os holofotes só nele...E pensamentos de "homeschooling" invadem a sua mente...tudo passou tão rápido... em vão... o mundo está lá, e você, que sempre foi fã número 1 de escola, de escrever bilhetinho com poema pra professora, de passar horas na biblioteca escolhendo o próximo livro... sabe que essa experiência é tão necessária quanto imperdível... você não quer que ele perca, e sabe que seu coração bate mais forte junto com o dele, só de pensar no tamanho e na amplidão que o espera logo ali, a dois quarteirões de casa...

Estão lá na porta a mochila de sapo, a lancheira combinando e a agenda com bilhete para a Madame Lily ("Ela tem o mesmo nome do meu peixe! Disse um Zack muito surpreso")... e aqui estão elas, rolando soltas enquanto mamãe escreve e pensa... meu filhote, tão grande, tão moço...menino de escola, como disse a vovó...começando mais uma etapa dessa aventura sem volta, eita mundão...

É a promessa de vida no seu coração, já diria o Tom... feliz primeiro dia de escola filhote!!! Vai que o mundo é seu! Fica aqui sua mãe, sem controle nenhum da "grandura" que vem pela sua frente, mas na torcida por uma aventura descontroladamente maravilhosa.


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Perguntê

Enquanto aos quase 6,  ele questiona a essência das coisas atemporais:

- Mamãe, Jesus usava cueca?

Ela aos 3 questiona a lógica das ações humanas:

- Mamãe, deixa eu experimentar o seu sorvete?  - diz ela com o seu pote de frozen iogurte cheinho e intacto na mão.
- Não filha, você tem o seu.
- Mas mamãe... - com cara de quem tem um plano - eu sou seu amor?
- Sim, filha, você é o meu amor - com cara de quem sacou o plano mas vai ver o final.
- Então... tem que dividir as suas coisas, lembra?
- É Ninoca, eu lembro - Moleca esperta e gulosa 1 X Mãe egoista que no fundo não queria dividir o sorvete mesmo  0.


Porque ter filhos é não ter respostas e dar o braço a torcer. Ou se fingir de morta, o que funciona tão bem quanto, dependendo do humor e da pressa.




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Primavera 2012

Estamos sumidos, mas estamos assim:
Uma mãe que não faz mais nada a não ser escrever tese sob altas doses de qualquer coisa que a mantenha  acordada...
E que por isso está perdendo os primeiros radiantes dias de sol no hemisfério norte com a família,  além de estar perdendo tudo mais que esteja acontecendo fora do seu computador...
...tudo isso em nome de três letrinhas depois do nome e quiçá, de um mundo um pouco melhor para crianças com deficiência e suas famílias (e que por isso fica feliz quando vê essa pintura aí na parede da academia, na qual ela vai, quando vai,  à 1 da manhã
Uma mãe que por sorte, tem um marido que vale ouro e assumiu total as rédeas das casas e crianças... e uma mãe pra fazer lanchinhos saudáveis em noites de desespero...

...e possibilita três gerações de sandalinhas brilhantes...

Enquanto isso, as crianças, não sem ressentimentos seguem tomando lanchinhos ao sol...


...Escrevina decidiu se autoalfabetizar e desenha orgulhosa as letras "da mamãe" (M e A), ela também anda toda prosa com suas poses de ballet e seus desenhos da mão e de sol com muitos raios, de uma fofura interminável que não pode ser capturada em fotos, só em amassos (os quais aliás, ela deixa dar "bem forte")...

Enquanto Moçack pode ser declarado oficialmente alfabetizado e desenhista de primeira, além de violinista e o menino mais queridinho que eu conheço, e digo isso com precisão científica ...


Resumidamente e nas fotos que eu consegui subir em 2 minutos nesse novo blogger que eu não to entendendo... é isso!